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Léo e Bia: A primorosa declaração de amor ao teatro de Oswaldo Montenegro

Léo e Bia: A primorosa declaração de amor ao teatro de Oswaldo Montenegro

Como se fosse urgente e preciso

Como é preciso desabafar

Qualquer maneira de amar valia

E Léo e Bia souberam amar

Quando a personagem de Marina vivida por Paloma Duarte abre a cena narrando sobre o seu prazer em interpretar aquela personagem, por conhecer, não só a pessoa em que ela foi inspirada, mas também por entender que existe um Léo, uma Bia, um encrenca, cachorrinha e tantos outros desses personagens pelo Brasil a fora, é o momento em que entendemos a enorme declaração de amor ao teatro que irá ocorrer durante uma hora e trinta e sete minutos de projeção.

A trama? Bom, a trama é bem simples: um grupo de jovens faz teatro durante 1973, período ditatorial no Brasil. Nesse tempo, juntos, eles descobrem seus sonhos, amores e expectativas para o futuro, ao tempo que também lidam com seus dilemas pessoais. Mas, taxar Léo e Bia apenas como isso seria uma heresia, pois ela possui muito mais conteúdo. É quase uma biografia do autor, diretor e compositor Oswaldo Montenegro, que não só escreveu, como dirigiu e criou todas as músicas para o filme. Em entrevistas, o criador explica que o texto foi escrito em cima de suas próprias experiências na época. Não é à toa que a personagem Marina foi inspirada em Madalena Salles, instrumentista e amiga de longa data do roteirista e diretor, e que também participou da produção do filme.

Léo e Bia é um projeto intimista, todo gravado em um mesmo lugar, mostrando os dias de ensaio daquela companhia. Aos poucos, através de momentos inteligentes e construídos de forma muito cuidadosa, conseguimos entender a vida de cada um fora daquele galpão, sem precisarmos fisicamente sair de lá. Uma abordagem que mistura, de forma deliciosa, duas linguagens audiovisuais semelhantes (teatro e cinema) e ao mesmo tempo muito distintas. Isso graças ao montador Pedro Gracindo que consegue ter a sensibilidade exata para construir uma obra que não se permite ralentar. Também há de se exaltar toda a equipe técnica que abraça o projeto com uma paixão que é sentida em tela. Seja nas mudanças de luz, nas transições de cena ou até no uso do espaço de forma teatral sem ser expositiva ao extremo para não trair a linguagem cinematográfica. É como se tivéssemos assistido um grande espetáculo teatral gravado. Uma experiência de teatro em tela.

E tudo isso vai muito além do apuro técnico, pois Oswaldo Montenegro consegue nos trazer uma narrativa sólida e cheia de nuances onde todos os personagens são desenvolvidos e humanizados. Conseguimos sentir seus dramas, seus desafios e até reconhecer em nós ou em pessoas próximas dilemas semelhantes aos que nos são apresentados em tela. Dilemas esses que vão desde o amor juvenil, ao relacionamento abusivo e castrador entre pais e filhos, aqui materializado na personagem de Bia (Fernanda Nobre) que sobrevive a um relacionamento carcerário com sua mãe (Françoise Forton). Essa alegoria, é claro, não entra de forma largada no meio do grupo, fazendo um paralelo evidente acerca da relação mantida entre os artistas e o governo. Algo complexo e muito bem explorado através das protagonistas femininas da obra que materializam as diversas características da população da época. Seja a pessoa omissa aos abusos que não consegue reagir, aqueles que sabem do abuso e se posicionam contra ou aqueles que reconhecem o abuso, mas não fazem nada a respeito, apenas seguindo os demais, deixando a vida levar. Uma alusão textual elegante que enriquece a obra sem precisar ser didática.

Outro grande acerto do filme é a trilha sonora composta por Oswaldo Montenegro e parceiros e muito bem utilizadas durante o filme. Destaque paras as canções “Léo e Bia” e “Coisas de Brasília” que abrem e fecham a sessão de forma emocionante, colocando uma identidade autoral e singular, fazendo desta experiência, um objeto fílmico único.

Quanto aos personagens que dão título ao filme? Bom, eles estão lá e há sim um romance bem desenvolvido entre eles que é o estopim da trama. Mas tudo isso fica para trás  sobre a alegoria criada em cima daquele grupo de teatro, aquele grupo que eu e você poderíamos fazer parte, ou que conhecemos alguém que fez parte. Aquele grupo que marca a nossa vida, aquele grupo que deixa uma marca em nós, deixando até um dos mais amargos momentos da história com um agridoce na boca.

“… A gente tinha um tédio lindo porque era tédio de tudo. Ai eu percebi que eu seria diretora e protagonista do filme da minha vida e que nós faríamos esse roteiro. E eu não ia deixar que nenhum patrocinador influísse, não ia mesmo!”

Filme: Léo e Bia

Ano: 2010

Roteiro: Oswaldo Montenegro

Diretor: Oswaldo Montenegro

Elenco: Emilio Dantas, Fernanda Nobre, Ivan Mendes, Paloma Duarte, Pedro Nercessian, Vitória Frate, Pedro Caetano e Françoise Forton

Gênero: Comédia e Drama

Disponível: Youtube

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Tags do artigo: filme léo e bia, léo e bia, oswaldo montenegro, peça léo e bia, teatro e cinema,

Sobre o autor:

Isaac Serrão

Isaac Serrão

Sou escritor desde que me entendo por gente. Sou professor de teatro e graduando em cinema Audiovisual. Sou apaixonado pela linguagem e o poder das histórias. Aqui no Kailua estarei fazendo resenhas críticas de filmes e séries, dando sugestões de conteúdo audiovisual e compartilhando de contos fantásticos.

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